God of War
PlayStation 2
"..um raro equilíbrio entre combates
e quebra-cabeças...... O que o jogo de
carro "Twisted Metal" e "God of War", um adventure de ação, têm em
comum? A resposta poderia ser o mesmo DNA orientado para a
destruição, vindo da mente de David Jaffe. Novamente, ele encabeça
a criação de um título primoroso, digno de pertencer ao hall dos
melhores dessa geração.
Mas "God of War" não é exatamente original. Seu principal acerto é
um raro equilíbrio entre combates e quebra-cabeças, e ser
magnificamente polido, bem-acabado, em todos os aspectos, seja nos
quesitos técnicos ou artísticos.
Beleza grega
Logo na tela de opções, o estúdio de Santa Monica da Sony Computer
Entertainment americana já abre sua caixa de ferramentas. Com
opções para progressive scan em 480P e wide screen, a beleza visual
ganha ainda mais força. E há também uma curiosa opção para suavizar
as bordas dos pixels, em troca de alguma perda de nitidez em termos
gerais.
Feita a opção de começar o jogo, o refinamento visual que norteia
toda a aventura é apresentado ao usuário, com cenas de computação
gráfica até que singelas, mas de grande valor artístico. Logo, o
protagonista Kratos, um ex-guerreiro espartano, volta três semanas
antes no tempo, no meio de um navio rumo a Atenas.
Novamente, logo nos primeiros combates, o jogador poderá perceber o
que o aguarda nas cerca de 15 horas de entretenimento puro. A visão
do jogo usa o tradicional sistema de terceira pessoa, com câmera
dramática, localizada em pontos estratégicos com o objetivo de
obter o ângulo mais apropriado dentro do cenário. "God of War" não
cai na armadilha comum a esse tipo de trabalho de câmera, que
geralmente faz desorientar o jogador, ainda que em alguns poucos
momentos isso aconteça. Alguns poderão sentir falta de um maior
controle da visão, mas essa limitação faz parte do desafio.
Se há algum ponto negativo em todo o trabalho visual do game é que,
de vez em quando, a iluminação das cenas de computação gráfica não
bate com a do jogo, em tempo real. Obviamente é um defeito mínimo
dentro de um excelente trabalho.
Pelo jeito, a Sony percebeu seus méritos e não se inibiu em mostrar
todo o processo nos extras. Há "making of" de quase todos os
processos que envolveram a produção de "God of War" e, assim como
os filmes de DVD incluem cenas deletadas, o game oferece a chance
de ver as fases e designs que acabaram não entrando na versão
final.
A mitologia na ponta dos dedos
O enredo conta a história de um ex-guerreiro de Esparta, uma
cidade-estado grega, que busca vingança contra Ares, o deus da
guerra na mitologia grega e razão do título do jogo. Versados no
tema reconhecerão os mais famosos personagens dessa lenda, como
Zeus, Artemis e Poseidon. Naturalmente, os inimigos vêm da mesma
fonte, e monstros como ciclopes, minotauros, hárpias e outras
criaturas lendárias serão um obstáculo a mais para o jogador.
O jogo não esconde sua vocação de atender ao público maduro, visto
o nível de violência, sangue, nudez e até algumas situações
sexuais. Mas todos esses elementos são suavizados com um quê de
estilização e acabam não sendo tão chocantes como se poderia supor.
No quesito violência e sangue, rivaliza com "Resident Evil", por
exemplo. A nudez se verifica na fartura de seios a mostra, fato até
um pouco raro em videogames.
Muitos desenvolvedores reclamam que o PlayStation 2 é um hardware
difícil de explorar, mas a Sony, no alto de sua condição de
arquiteta do aparelho, demonstra que ele deve muito pouco aos
concorrentes GameCube e Xbox. O jogo traz imagens detalhadas e com
alta taxa de quadros por segundo, ainda que, em determinadas
situações, a velocidade fique instável, mas, mesmo assim, o fluxo
da ação não é interrompida.
Mens sana in corpore sano
Como dito, "God of War" equilibra magistralmente os elementos de
ação e raciocínio. O jogador possui diversos tipos de ataque e a
animação é simplesmente fantástica, com todos os movimentos fluindo
de maneira natural. Os golpes, em boa parte, são fáceis de
realizar: os controles perdoam quase todos os deslizes de sincronia
e mesmo quem nunca jogou um título desse tipo poderá batalhar como
se fosse um mestre da espada.
Isso não significa que os jogadores exigentes estejam fora do
escopo de "God of War". Para eles existem modos de jogos mais
difíceis, que oferecem recompensas aos vencedores. A variedade de
golpes não é tão grande assim, mas há muitos movimentos
úteis.
Além de sua espada básica, Kratos ainda recebe diversos tipos de
poderes celestiais, além de algumas outras armas. Todos esses
elementos podem ser encaixados dentro de um combo, que, obviamente,
quanto maior a combinação, maior o prêmio. O que se ganha são
almas, que têm diversas funções como experiência, energia e
magia.
"God of War" usa a criatividade para não cair na armadilha de ser
um simples jogo de "amassar botões". Todos os inimigos podem ser
mortos com golpes comuns, mas muitos (os maiores principalmente)
têm a opção de serem exterminados com ataques sensíveis ao
contexto, como um minigame de pressionar os botões ou girar o
direcional como aparece na tela. Para quem conhece, ele é bem
parecido com o QTE (quick time event) de "Shenmue". Com isso, o
usuário consegue escolher as almas que deseja.
As batalhas são intercaladas com a exploração do cenário, que
esconde baús atrás de paredes falsas ou portas, ou em outra
localidade difícil de enxergar; e quebra-cabeças inteligentes que
requerem contrapartida intelectual do jogador. Nem muito
complicados ou simples demais, os quebra-cabeças sempre estão
dentro do contexto, e variam entre o acionamento de uma simples
manivela até a solução, gradual, de enormes salas cheias de
pequenos enigmas.
O design das fases também é variado e oferece desafio na medida
certa, sem ser linear demais nem aberta ao extremo. Geralmente, o
personagem tem duas ou três rotas a explorar, além de algumas salas
secretas com recompensas proporcionais ao esforço de
descobri-las.
Um lugar no Olimpo
Kratos entra para a galeria dos heróis dos videogames,
protagonizando uma aventura refinada e de equilíbrio primoroso,
agradando tanto jogadores novatos como os mais experientes. Um dos
poucos empecilhos é seu conteúdo violento ou sexual demais para
pessoas sensíveis, mas, de resto, aproveite: a qualidade de "God of
War" aparece só algumas vezes em cada
geração.